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O GUARDA COSTAS   - Publicação da Revista Joyce Pascowitch  - 

 

Quem no mundo pode, em sã  consciência, ou na mais insana inconsciência, dizer que nivelou seu destino com três presidentes dos Estados Unidos, com Lady Di, com o príncipe Charles, o papa João Paulo 2° - e ainda fez-se passar por um temido traficante de cocaína, a ponto de encantar Pablo Escobar em pessoa? No mundo, somente Francisco Carlos Garisto, brasi­leiro, nascido no bairro de Tucuruvi, zona norte de São Paulo. Perpetuado de dor, com seus amigos tombados pelo crime, iniciou sua carreira de poli­cial federal. Na metade dela, era o maior segurança de dignitários do mundo. Antes disso, e já pleno de lucidez, testemunhou no combate ao crime todo o tipo de desumanidade, praticada sempre por ho­mens de gatilho fácil e sentimentos confederados. Garisto vai ter agora sua vida na telinha. O ci­neasta Mauro Lima, diretor do sucesso Meu Nome Não É Johnny, inspirou-se na vida do policial para fazer seu novo roteiro. Para tanto, Mauro Lima foi contratado pela produtora O2, de Fernando Meirelles, que prepara a trama em contrato com duas grandes produtoras dos Estados Unidos. Mauro já escreve o roteiro. E, até hoje, toda a megaprodução, inspirada em Garisto, sobretudo, recebeu o nome de Projeto Máfia, dado provisoriamente pela O2. Garisto, agora, procura editora para lançar sua autobiografia, que deve sair com o filme. Seguem os principais trechos da conversa com ele. Maiores deta­lhes da sua história não puderam ser revelados por cláusulas de sigilo no contrato com a O2.

Memórias

"Desde menino queria ser polícia. E na repres­são ao entorpecente. Fui criado em um bairro aqui em São Paulo, o Tucuruvi, onde, por causa da dro­ga, o esquadrão da morte da época matou 90% dos meus companheiros de rua, era uma bandidagem danada. Nasci em 1952, na época estava com 10 anos, se não me engano. Sem farda, o pessoal da

Polícia Civil com um monte de PMs cercaram o campinho. Quem atirou, e muito, foi o pessoal da civil, Fleury e companhia. Eles balearam o 'Negão do Rock', nome Carlos Alberto Dias, me parece, mas eram os mesmos do esquadrão que havia matado o Nego Sete em Guarulhos. Ele foi baleado e carre­gado para a viatura C-14 bem rápido."

Garisto virou agente federal de primeira linha. Viu o batismo das sarjetas, a fogo e chumbo fumegante, e também ouviu as tertúlias sedantes que eram todas as palavras balsâmicas com as quais se consolavam os agentes federais em risco. E as­sim, quando a carreira, em si, converteu-se num horizonte apagado, oprimente, Garisto fez-se, de novo, outra coisa. Criou o primeiro sindicato dos policiais federais do Brasil. A reverberação desse sindicalismo meteu-lhe em trapalhadas. Afinal, parou a Polícia Federal por quatro vezes, em gre­ves intempestivas que chicoteavam a paciência de quem pegava aviões de carreira, que expunha  ao osso as contradições de uma corporação que luzia por fora e, por dentro, era lavada por uma aura corporativa dos diabos. Mesmo assim, ser policial federal para ele sempre foi uma profissão de fé.

 

Balanço

Hoje, perguntado sobre sua vida em prol do combate ao crime, ele extrai algumas filosofias. "No balanço final de um convívio de anos em uma atividade policial descobrimos que podemos fazer uma relação imensa de pessoas más, assassinas, sem escrúpulos, invejosas e outros adjetivos pés- simos que poderiam ser colocados facilmente em uma infinidade de pessoas com quem convivi. Não faço essa relação. Para esse tipo de gente a maior vingança é esquecê-las."

E prossegue. "Minha maior satisfação na PF foi participar efetivamente do desmonte do maior cartel de drogas do mundo - o Cartel de Medellín -, assim como as minhas atividades sindicais, onde realmente pude colaborar para tirar a PF da miséria em que se encontrava. A minha maior frus­tração é ver que nesses anos todos no combate às drogas o que fiz e o que todos fazem em termos de segurança pública é 'enxugar gelo' e mais nada."

Homens como Garisto, forjados nessa tempe­ra, começaram a se fazer necessários quando a cocaína era uma débil efervescência que passava para uma detonação confusa das causas liberticidas. O que era metáfora de libertação do corpo converteu-se em uma indústria que hoje movi­menta US$ 3 trilhões em todo o mundo. Portanto, era para Garisto, o anjo da guarda dos famosos, também o papel de quem que cataria, tocaiados, os maiores narcotraficantes num lusco-fusco qualquer da América Latina mais profunda. Garis­to passou a tocar uma investigação em cima de um traficante chamado Totó Garcia, o maior do Brasil na época. Só para registrar: esse trabalho é que deu origem à lei que proíbe o comércio de éter e aceto­na. Em Cuiabá, lhe apresentaram um subalterno chamado Pina. Quem apresentou foi um dândi de punhos clericais, hábitos ociosos, dono daquela candidez rupestre dos corruptos da caspa do cape­ta - um outro nome que a cocaína levava aqueles dias. "Eu tinha identidade falsa, CPF falso. Não po­dia ter um furo. O repuxo do serviço de infiltração é o pior que existe. Você fica nervoso, dorme com o olho aberto." A carreira de Garisto como policial disfarçado no cartel começou com uma entrega de éter e acetona na Bolívia. Garisto ia infiltrado com material de escuta feito pela Nasa. Ele era extrava­gantemente cediço quando se tratava de missões especiais.

Em total desacordo com o estado anterior, agora lhe cai nas mãos o papel de anjo da guarda - que na PF ganha o nome de durex. E sua missão era grudar no papa João Paulo 2°. Garisto lembra de cenas im­pagáveis, datadas de 1980. "O papa então almoçou e entrou no quarto para dormir. No planejamento, ele ia dormir meia hora, depois desse tempo íamos sair para visitar outro seminário." Garisto ficava de fora do quarto. "Botei o papa lá dentro, ele foi descansar. Daqui a pouco vejo aquele vulto na ja­nela, vindo", lembra. Eu falei: "Porra, é o papa, é ele que vem vindo". Só tinha ele lá dentro. E ele vem amarrando aqueles troços aqui na cintura. E falou: "Como vai? Tudo bem?" E pá, terminou de abrir a porta, só ele e eu. E ele disse: "Eu queria ir à capela, rezar um pouco". Peguei meu mapa - porque você anda com um mapa - e olhei: "A capela fica ali na frente, santidade, se o senhor quiser ir...". Quando os bispos da comitiva se aproximaram do papa, ele disparou: "Lá vêm eles, a minha turma de puxa-sacos". Eu olhei para o papa assim, falei: "Não são assessores? Puxa-saco não é assessor?". Alguém sacaneou o papa, entendeu? Ensinaram que em português assessor se chamava puxa-saco.

No mesmo ano Garisto foi segurança do prínci­pe Charles. Era uma noite fria, eles estavam hospedados no hotel Maksoud Plaza, na região da ave­nida Paulista. Garisto é abordado por um inglês: "O príncipe quer ir ao Sargentelli". Garisto vetou. Diante do impedimento, o segurança inglês en­trou no gabinete. Charles ficou "pé da vida". E Garisto disparou: "Não quero proibir o príncipe da Inglaterra de sair, quero preservá-lo para ele chegar a ser rei". Aí o cara falou isso pra ele e ele ficou todo sem graça. Garisto pediu meia hora, preparou tudo e todos acabaram indo para o Oba-Oba. E foi uma farra. "Saiu na Veja o príncipe dan­çando com as mulatas, uma zorra desgraçada."

A princesa do mundo

Lady Di visitou o Brasil em 1991. Garisto relata: "Ela tinha em sua agenda inaugurações de clínicas de crianças deficientes e orfanatos. Fui o chefe de sua segurança por dois dias e pude ver, ao vivo, o carisma da princesa do mundo, como era chama­da. Na última noite de sua estada no Brasil ela pediu para ir nadar em uma piscina que havia na cobertura do hotel. Disse que na­dar era um hábito que estava fazendo falta para ela. Entendi o pedido e solicitei 15 minutos para fazer a checagem da cobertura e da piscina, que não estava em seu roteiro oficial. Falei com o filho do proprietário do hotel, Rober­to Maksoud, e pedi a ele um funcionário para que entrasse na piscina antes da princesa, brincamos que ele iria nadar na mesma água da princesa. Isso era para ter certeza que o sistema elétrico das lu­zes estava em perfeitas condições."

Mas quando ela estava lá, Garisto perce­beu uma figura escura do outro lado do andar. "Flagrei um fotógrafo do Jornal da Tarde que tentava tirar fotos da princesa de maio na pis­cina. Ao perceber a movimentação incomum, a princesa perguntou o que estava acontecendo e, quando soube, pediu para trazer o fotógrafo até ela e, com a maior educação e simpatia, pe­diu para ele não fazer aquilo em um momento de intimidade dela. Como prêmio ao fotógra­fo, posaria para ele em fotos oficiais antes de partir. O fotógrafo entregou o filme esponta­neamente para ela, agradecendo a atenção e a simpatia como tratou o caso." •

 

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